Vida em Gliese 581g, e como a descobrimos?

Vivemos uma coincidência extraordinária em nosso evento Cosmos 30 Anos, realizado no último sábado, 2 de outubro, na Estação Ciência. Na quinta, dois dias antes, foi anunciada a descoberta de um planeta possivelmente habitável em uma estrela já nossa conhecida, a anã vermelha Gliese 581.

Em 2007 o anúncio da descoberta do planeta Gliese 581c, classificado como uma super-Terra (estes são mundos maiores que o nosso, e provavelmente do tipo rochoso), causou rebuliço inédito no mundo. Situado dentro da zona habitável de sua estrela, motivou até mesmo o envio de mensagens de rádio para o sistema, na esperança de que uma civilização alienígena lá existindo possa captá-las. Revistas semanais aqui no Brasil chegaram a estampar a descoberta em matérias de capa, e não só anunciamos a espetacular notícia aqui no Aumanack, como escrevemos um editorial a respeito.

Contudo, observações posteriores convenceram a comunidade de astrônomos que infelizmente o 581c parece ser quente demais para conter água líquida em sua superfície, requisito básico para a vida. Novos achados que também noticiamos no Aumanack mostraram que as anãs vermelhas, classe de estrelas bem menores e mais frias que o Sol, como a própria Gliese 581, estão bem longe de ser desinteressantes como alguns astrônomos as consideravam. Elas estavam até mesmo fora da lista do SETI, o programa de Busca por Inteligência Extraterrestre, como alvos de seus radiotelescópios em busca de transmissões de rádio alienígenas.

Contudo, na semana passada veio o anúncio espetacular, que novamente agitou todo o noticiário. A descoberta se revela de tamanha importância que, abandonando a tradicional e necessária cautela própria dos cientistas um dos responsáveis, o astrônomo Steven Vogt, afirmou: As chances de que exista vida neste planeta são de 100%”. E há pouco mais de uma década era “impossível” que existissem planetas ao redor de outros sóis, lembram?

Além de co-editor deste Aumanack, este que vos escreve este artigo é também consultor da revista UFO, para a qual escreveu este artigo, relatando a impressionante descoberta. O novo exoplaneta, Gliese 581g, cai bem dentro da zona habitável de sua estrela, e reúne todas as condições para possuir água líquida e uma atmosfera. Deve ser pouco maior que a Terra, com cerca de três a quatro vezes a massa da Terra, e um raio entre 1,5 e duas vezes o de nosso planeta azul. Dista de Gliese 581 cerca de 0,15 Unidades Astronômicas (1 AU equivale a 150 milhões de quilômetros, a distância que separa a Terra do Sol, façam as contas), e tem um ano de somente 37 dias.

Esse mundo foi achado após 11 anos de estudos, analisando dados de velocidade radial da estrela. A gravidade de um planeta puxa seu sol, um efeito muito pequeno mas que podemos medir daqui da Terra. Evidentemente, como conhecemos 6 planetas ao redor de Gliese 581 (o mais externo, 581f, foi anunciado ao mesmo tempo que o 581g), naturalmente são necessários muitos e muitos cálculos a fim de separar as interações gravitacionais e suas influências no “bamboleio” da estrela.

Localizado tão perto de seu astro central, 581g deve manter uma face permanentemente voltada para ele, exatamente como a Lua faz com a Terra. Assim, haveria um dia perpétuo nesse hemisfério, e noite eterna no lado oposto. Porém os cientistas dizem que ventos na atmosfera equilibrariam até certo ponto as temperaturas, e a faixa entre o lado iluminado e o lado de sombra seria bem agradável para seres vivos. E poderiam até existir ramos de criaturas exclusivos de cada hemisfério.

Até vale a pena fazermos um rápido tour pelo sistema!

Gliese 581 é uma estrela anã vermelha, situada a 20,5 anos-luz de nós. Como ainda não temos motores de dobra espacial, com as tecnologias atuais demoraria milênios até chegarmos lá. Se atingíssemos a prodigiosa velocidade de 10 por cento da velocidade da luz, levaríamos mais de 200 anos na viagem. Muito para a duração de uma vida humana, a menos que seja usado um de dois truques da nossa boa, velha e querida Ficção Científica: hibernação ou nave de gerações. Mas quem sabe nossos robôs poderiam fazer a viagem. Importante frisar que sua idade é calculada entre 7 e 10 bilhões de anos, enquanto nosso sistema tem 4,5 bilhões de anos. Tempo para existir uma civilização altamente tecnológica em Gliese 581 é o que não falta.

Gliese 581e é o mais próximo da estrela, um mundo rochoso com cerca de duas vezes a massa terrestre. Muito perto da estrela, e quente demais para a vida.

O mundo 581b tem o tamanho aproximado de Netuno, cerca de 16 vezes mais massivo que a Terra, e quebrou um paradigma. Os astrônomos achavam que um “Júpiter quente” como ele tão próximo de sua estrela teria feito uma migração para sua atual posição, o que poderia lançar planetas menores para fora do sistema. A existência de mundos rochosos exteriores a ele mostrou que a teoria de formação planetária precisa ser revista.

Gliese 581c, o astro dos anúncios anteriores, completa um ano em cerca de 15 dias somente. Ele “raspa” a zona habitável, mas é hoje considerado quente demais para ser habitável.

O próximo mundo é 581g, o novo exoplaneta que está totalmente na zona habitável de Gliese 581.

Gliese 581d também está no limite da zona habitável, é uma super-Terra sete ou oito vezes mais massiva que nosso mundo, e seu ano dura 67 dias terrestres. Suspeita-se que ele possa ter sua superfície aquecida a ponto de ser um mundo de gelo, ou oceânico. Agora que as atenções se voltaram novamente a esse sistema, talvez as dúvidas sejam desfeitas.

O mundo 581f, também presente no anúncio da semana passada, é o mais distante mas ainda assim mais próximo de sua estrela que a Terra do Sol. Aliás, o sistema está representado na imagem no começo deste artigo. O planeta tem cerca de sete vezes a massa da Terra, podendo tanto ser uma grande super-Terra, ou um mundo gasoso do porte de Netuno.

Mas, e aí? Como confirmamos a presença de vida em Gliese 581g? Uma maneira é apontar os radiotelescópios e tentar captar alguma transmissão. O pessoal do SETI diz que já fez isso, e não captaram nada.

Outra maneira é buscar as assinaturas químicas da vida. Por exemplo, o metano na atmosfera da Terra tem duas fontes, tectônica e biológica. E o próprio oxigênio foi produzido nos bilhões de anos em que a vida na Terra se resumia a organismos unicelulares. Esses dois gases não costumam estar juntos em atmosferas, a não ser que a vida os produza.

Obviamente, compostos complicados como os clorofluorcarbonos poderia significar que alguém os está produzindo, o que indicaria também a presença de vida. Vale lembrar que os astrônomos já analisaram atmosferas de exoplanetas, mas esses estudos foram realizados em mundos gigantes gasosos e próximos de suas estrelas, além de realizarem o que chamamos de trânsito, ou seja, passaram entre sua estrela e a Terra.

Além de Gliese 581g ser bem menor que esses mundos já analisados, aparentemente ele tem o plano de sua órbita em posição tal que um trânsito não é visível daqui. Infelizmente isso significa que os telescópios atuais, tanto baseados em terra quanto no espaço, não possuem a capacidade de examinar diretamente o planeta.

Uma das esperanças nesse sentido é o projeto do TPF, sigla de Caçador de Planetas Terrestres, um grande telescópio que a NASA pretende lançar ainda nesta década. Mas infelizmente os fazedores de política em Washington deixaram esse projeto sem financiamento, portanto não existe uma data precisa para o lançamento. Existe ainda a esperança de que o projeto europeu E-ELT, sigla de Telescópio Extremamente Grande Europeu, a ser construído em Cerro Armazones, Chile, para entrar em operação até 2018, seja capaz de fazer imagens de exoplanetas ao redor de estrelas próximas.

De todo modo, a busca pelos exoplanetas prossegue, e de desacreditada até 1995, quando o mundo ao redor de 51 Pegasi foi anunciado, é hoje a principal área da pesquisa astronômica. Até o dia 30 de setembro de 2010, já estão confirmados 492 planetas ao redor de outras estrelas. Seguramente passaremos de 500 ainda neste ano, a mais prolífera busca de novos mundos já realizada, e que com certeza ainda trará muitas descobertas incríveis no futuro próximo. Como disse Jon Jenkins do SETI: “Acredito que Gliese 591g é apenas a ponta do iceberg. Há vinte anos, poucas pessoas pensavam que descobriríamos planetas extrassolares logo. Este achado mostra o quanto fomos longe”.

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