Artigo: épico Blade Runner coloca em xeque a humanidade andróide

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“O homem criou o homem à sua imagem e semelhança. Agora o problema é seu”.

Replicante, andróide, robô coisa nenhuma!
Isto aí é ser humano por brotamento. Homem de laboratório remanejado artificialmente, mas homem. Cria da engenharia genética, sonho da ciência do fi nal do século XX. É a fronteira incômoda entre o humano e o replicante que incomoda do Rich Deckard (Harrison Ford).
Ele não queria mais pertencer a Blade Runner Units porque não quer mais “aposentar” replicantes.
Ao fazê-lo, era tomado pelo sentimento da ambigüidade.
Pergunta à Rachael (Sean Young) se está tremendo depois de matar e confessa sentir isso também (Shakes? Me, too.). Os replicantes querem conhecer seu criador, têm medo da morte, desejam viver mais, agem e planejam ação em grupo, fazem escolhas, sentem falta dos que morreram, amam, confi am, entregamse, choram, salvam, vingam-se e perdoam. Este é o homem.
Em 1968, quando Do Androids Dream of Electric Sheep? (Os Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?), de Phillip K. Dick, foi publicado, Martin Scorsese logo percebeu o potencial cinematográfi co do romance futurista. Envolvido com outros projetos, o diretor acabou deixando de lado a idéia de adaptar a história para as telas. Nos dez anos seguintes, os direitos do livro despertaram o interesse de alguns roteiristas, mas acabaram sendo adquiridos por Brian Kelly. Com muito custo, ele convenceu Michael Deeley a assumir a produção do fi lme e convidou seu amigo Hampton Fancher para escrever o roteiro.
A difi culdade em convencer os estúdios de Hollywood a bancarem a idéia, devido aos custos elevados da adaptação, acabou prorrogando o início das fi lmagens por mais dois anos. Eis que, em 1980, Ridley Scott, que havia chamado atenção com “Alien – O 8º Passageiro” um ano antes, assumiu a bagaça defi nitivamente.
De início, Scott fez uma série de modificações no roteiro, mas aceitou uma (boa) sugestão de Fancher: substituir o termo detetive por blade runner, inspirado no título de um livro de William Burroughs. Outra alteração foi em relação ao ano da ação, pois no livro a história se passava em 1992, data próxima demais do ano de produção. Para garantir uma data convincente, foi escolhido o ano de 2019.
As fi lmagens foram fi nalizadas em apenas quatro meses, mas os chefões da Warner conseguiram segurar o lançamento por mais algum tempo. As toupeiras consideraram a trama muito complicada e “sugeriram” alguns remendos signifi cativos: incluir a narração do personagem principal e modifi car o fi nal do fi lme. Em vez da ambigüidade da última cena, os executivos impuseram aquele happy-end insosso, utilizando sobras de gravações de O Iluminado (olha o Kubrick aí novamente!).
Nem isso fez com que a crítica e o público americano assimilassem o fi lme. A recepção a Blade Runner só começou a melhorar quando passou a ser exibido na Europa. Conseqüentemente, o lançamento em vídeo garantiu o retorno para a Warner. A companhia mordeu a língua mais uma vez em 1990, quando a versão original passou a ser exibida clandestinamente no circuito universitário. O frisson foi tanto que a Warner recolheu os rolos de fi lme, deu um esporro nos estudantes, e chamou Ridley Scott para lançar o material novamente e do jeito que quisesse. A “versão do diretor”, como todo mundo sabe, excluiu a narração e incluiu novas cenas, entre elas, o sonho de Deckard com o unicórnio.
Vinte anos após seu lançamento, é impossível sugerir um único retoque em Blade Runner.
Ridley Scott, indiscutivelmente no seu melhor momento, cometeu um pequeno milagre.
A começar pelo elenco, na época constituído por atores pouco conhecidos. A exceção talvez fosse Harrison Ford, que já havia cativado o público como Han Solo (Star Wars) e Indiana Jones (Caçadores da Arca Perdida). Daryl Hannah, porém, consegue – pela primeira e última vez – excelentes resultados como a replicante Pris. Infelizmente, a atriz acabou deixando sua carreira rolar ladeira abaixo, participando de besteiras do nível de Splash – Uma Sereia em Minha Vida. Rutger Hauer, aquele andróide polaco que morre por último, também não desempenhou outro papel à altura, seja antes ou depois de Blade Runner. E Sean Young, então, nem se fala. Ah, a história: no ano de 2019, a terra continua um lixo e, como hoje, os mais espertos fogem das cidades superpopulosas. Graças aos avanços da engenharia genética, tornouse possível produzir não só animais artifi ciais (porque a maioria das espécies entrou em extinção), mas também protótipos humanos.
Nada demais para quem acompanhou a novela O Clone? O detalhe é que na época em que Phillip K. Dick escreveu o livro, os tataravôs da ovelha Dolly nem tinham soltado o primeiro “bééé” e até os bebês-de-proveta faziam parte de uma realidade distante.

Rick Deckard (Ford) é o blade runner do título, contratado para eliminar quatro replicantes que se misturaram com seres humanos normais. A narrativa, que no original era ambientada em São Francisco, foi transferida para uma Los Angeles sombria e chuvosa. A ambientação é perfeita e empresta elementos da estética noir, com locações inspiradas em Metrópolis (1926), a endeusada obra de Fritz Lang. Por fim, a trilha sonora assinada pelo grego Vangelis, e executada pela The New American Orchestra, não é apenas “supimpa”, como confere ao fi lme o selo defi nitivo de obra-prima.

Por: Marcelo Pellagos

 

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