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*Texto escrito pelo cineasta Daniel Bydlowski e publicado no jornal A Tarde

Grandes efeitos especiais, especialmente depois do uso de computadores para sua criação, possibilitaram a visita rápida a mundos e universos distantes e magníficos. Mesmo assim, é interessante notar que enredos que utilizam pessoas encolhidas ainda não foram muito bem aperfeiçoados. Talvez seja porque é muito mais estranho pensar em um homem de 10 centímetros do que uma visita a uma galáxia distante.

Não podemos confundir estes filmes com Querida, Encolhi as Crianças, de 1989, ou Homem-Formiga, de 2015. Nestes, os personagens se tornam tão minúsculos que a estranheza desaparece. Quando vemos seu ponto de vista, encontramos novos mundos, como um jardim que se torna uma floresta maior do que a Amazônia e células do corpo humano que se tornam gigantescas.

As produções que causam estranheza são aquelas em que personagens normais enxergam outros encolhidos sem muito esforço. O maior exemplo destes é O Incrível Homem que Encolheu, de 1959, embora momentos de encolhimento apareçam em outros filmes como A Fantástica Fábrica de Chocolate (cenas que são usadas com o propósito de chocar). E é exatamente este tipo de choque e estranhamento que faz parte de Pequena Grande Vida, dirigido por Alexander Payne.

O enredo, que se passa em um futuro não muito distante, mostra a vida humana depois que cientistas europeus inventam a máquina do encolhimento. Como ser pequeno ocupa menos espaço, e como o mundo vem enfrentando uma catástrofe econômica, logo muitos decidem se encolher, vivendo em casas não maiores que uma de boneca, mas que, relativamente, parecem uma mansão. Assim, mulheres encolhidas que gostam de joias podem comprar diamantes enormes, já que o minúsculo tamanho real deixa tudo mais barato. E comida? Um biscoito pode durar anos.

É com isso em mente que o casal Paul (Matt Damon) e Audrey (Kristen Wiig) decidem encolher. Afinal, logo poderão viver como bilionários. Porém, Audrey desiste no último momento, sem poder avisar Paul, que é encolhido. Assim, de maneira traumática, sua vida de casal termina, com Paul tendo que se adaptar ao novo e estranho ambiente.

O filme, que usa comédia eficazmente a fim de ajudar o espectador a se adaptar à ideia, também mostra como a tecnologia é negativamente usada por pessoas corruptas em países pobres para encolher inimigos, por exemplo. E é desta maneira então que o longa tenta mostrar diversos aspectos da humanidade.

Porém, o estranhamento deste tipo de longa sempre continua, e não é fácil de esquecer. Em entrevistas, Alexander Payne diz que seu intuito era apenas o de criar uma metáfora para o mundo presente, dizendo que “já somos pequenos frente ao universo”. Bom, se somos pequenos frente ao universo, não somos em relação à outras pessoas. Assim, o filme nunca ganha seriedade como uma metáfora.

A produçãoganha valor quando assistida como uma ficção científica e com pensamentos de como seria a vida se tal tecnologia fosse inventada. Fora isto, a comédia ainda vale a pena, assim como algumas cenas emocionantes, que contam com a ótima atuação da atriz tailandesa Hong Chau, interpretando Ngoc Lan Tran.

Mesmo assim, como filme, Pequena Grande Vida não consegue resolver um enredo complicado, que começa bem, mas logo se perde no estranhamento de uma pessoa encolhida e na criação de uma metáfora não muito óbvia.

Daniel Bydlowski é cineasta brasileiro e artista de realidade virtual com Masters of Fine Arts pela University of Southern California e doutorando na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. É membro do Directors Guild of America. Trabalhou ao lado de grandes nomes da indústria cinematográfica como Mark Jonathan Harris e Marsha Kinder em projetos com temas sociais importantes. Seu filme NanoEden, primeiro longa em realidade virtual em 3D, estreia em breve.

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